Ele canta a própria vida

Entrevista feita em 2010.

Mesmo sendo o baixista da banda Okotô, Jair Naves, um ser inquieto nos palcos, queria um espaço para tocar suas próprias composições. No final de 2000, reuniu alguns conhecidos, procurou um estúdio e gravou quatro músicas. Assim surgiu Ludovic. Depois de 8 anos e dois álbuns, a banda chegou ao fim.

Em fevereiro de 2010, Jair Naves lançou um EP chamado “Araguari”, o seu primeiro trabalho solo. O autor de letras, como ele mesmo afirmou, “indisfarçavelmente autobiográficas”, faz referência a cidade que fica no norte do Triângulo Mineiro, local onde passou parte de sua infância. Na entrevista ele conta sua trajetória e revela, “já começamos as gravações do meu próximo disco, que deve sair em 2011”.

Quando você percebeu que a música era o seu lugar?
Para dizer a verdade, nunca tive essa convicção. Acho que enveredei por esse caminho porque gosto de escrever e creio ter uma certa facilidade com letras de músicas. Mas não me considero um grande instrumentista, um músico nato ou algo do tipo. Tanto é que só criei coragem para aprender a tocar e para compor minhas próprias canções porque na adolescência me envolvi com punk rock, com aquela história de que não é preciso ter grande conhecimento técnico ou um talento extraordinário para se expressar musicalmente. Tenho conhecimento das minhas limitações e me esforço muito para superá-las cotidianamente.

Como é o seu processo de composição? As suas letras são autobiográficas?
São. Indisfarçavelmente autobiográficas.

Como surgiu o Ludovic?
Aos 18 anos eu comecei a tocar baixo numa banda chamada Okotô, que já tinha um trabalho estabelecido no cenário paulista desde o começo da década de 90. Eu adorava estar inserido naquilo, na verdade me sentia até honrado, uma vez que eu ainda era praticamente uma criança e já tinha a oportunidade de fazer música profissionalmente, além de conviver com músicos experientes, talentosíssimos. Ainda assim, o fato de eu não ter espaço para poder tocar minhas próprias composições me frustrava um pouco. Então no fim de 2000 resolvi sair do Okotô , reunir alguns conhecidos e entrar em estúdio para gravar quatro das músicas que eu tinha escrito na época. Assim nasceu o Ludovic.

Você escreveu no twitter que o show do Ludovic no Goiânia Noise de 2005 está gravado na sua memória. O que teve de especial?
Esse show foi algo verdadeiramente mágico. Nós já tínhamos tocado em Goiânia uma vez, no Vaca Amarela de 2004, mas na ocasião tivemos uma recepção bem discreta, então não esperávamos muito. E acabou sendo uma das apresentações mais fortes que fizemos em toda a nossa história. Enquanto fazíamos a passagem de som, as pessoas cantavam trechos das nossas músicas a plenos pulmões do lado de fora. Chega a ser difícil explicar o que foi aquilo.

Ludovic no Goiânia Noise de 2005

O Ludovic tinha como uma de suas características a intensidade nos shows. No antigo site da banda tem um pedido de desculpas referente a um show no qual se machucaram algumas pessoas. Você acha que em alguns lugares falta maturidade e respeito por parte do público?
Essa observação era mais relacionada à forma como as pessoas reagiam à nossa música. Como o Ludovic tinha uma sonoridade mais agressiva e atingia as pessoas de outra maneira, às vezes parte da platéia se comportava de maneira equivocada e acabava se expressando com alguma violência, colocando a segurança de outras pessoas em risco.

Você já fez algum show que deu vontade de acabá-lo no meio e ir embora?
Infelizmente já. Poucas sensações são piores do que essa.

Em janeiro do ano passado, Ludovic acabou. Foram oito anos, dois discos e vários shows intensos. O que esse período significa para você hoje?
Um grande aprendizado, acima de tudo. O Ludovic não só me proporcionou algumas das experiências mais marcantes da minha vida, mas também ajudou a moldar a pessoa que eu sou hoje. A grande questão relacionada à banda, que algumas pessoas não entendem, é que as coisas mudam. Da mesma maneira que você não se apaixona duas vezes por uma mesma pessoa, é impossível viver tentando recriar um estado de espírito que não existe mais. Mas foi ótimo, valeu a pena. Quando eu me lembro daquela época, tenho a sensação de dever cumprido.

Qual o sentimento de ver a banda acabar em um momento tão bom artisticamente?
Um dos motivos preponderantes para o fim da banda foi justamente que não nos entendíamos mais tão bem artisticamente. Nos preparativos do que seria o nosso terceiro disco, ficou bem claro que cada um de nós tinha intenções e necessidades artísticas bem diferentes. De certa maneira, até incompatíveis. Teria sido um erro tentar levar o Ludovic adiante naquele momento.

No seu último show em Goiânia, tinha algumas pessoas gritando o nome de algumas músicas do Ludovic e você disse, “essa banda não existe mais” e agradeceu o carinho. Está sendo difícil desvincular sua imagem do Ludovic? Afinal, foram 8 anos de banda.
Não acho que algum dia eu vá conseguir me desvencilhar por completo da minha antiga banda. Basta olhar para exemplos de outros artistas com um histórico parecido: quando falam do Mark Lanegan, por exemplo, sempre falam do Screaming Trees. A mesma coisa acontece com o Lou Reed e o Velvet Underground, com o Arnaldo Baptista e os Mutantes, com o Damon Albarn e o Blur, o Wander Wildner e os Replicantes, enfim… é natural. Ainda que me incomode em alguns momentos, não tem como fugir dessa associação.

Você já pensava em um trabalho solo?
Não, de forma alguma. Foram as circunstâncias que me empurraram pra essa condição de “artista solo” – coisa com a qual eu ainda estou aprendendo a lidar, pra dizer a verdade.

Quando surgiu a idéia do EP “Araguari”?
Quando eu decidi que iria passar a gravar e lançar músicas sob o meu próprio nome, me pareceu que o primeiro passo ideal seria falar sobre algo que me fosse muito pessoal, sobre minhas origens e coisas assim. Acabei escrevendo duas músicas que falavam de Araguari (MG), a cidade natal do meu pai, onde passei boa parte da minha infância. Acreditei que seria um conceito interessante para um primeiro disco.

Alguns “críticos” disseram que seu trabalho solo demonstra amadurecimento. Quando você começou a pensar o conceito e tema do EP?
Logo depois do fim da minha antiga banda. Na época tive um certo receio de que as letras seriam quase indecifráveis para as outras pessoas, justamente pelo fato de eu estar tratando de um assunto muito íntimo. Felizmente, a aceitação para esse EP acabou sendo muito melhor do que eu poderia esperar.

É difícil para algumas pessoas imaginar como Jair Naves, um ser inquieto no palco, será Jair Naves cantando “Araguari”. O que as pessoas podem esperar do show de Araguari?
Não sei. Cada show é único. Todas as apresentações são especiais para a gente, nos emocionam de formas diferentes. Só posso dizer que essas músicas são muito importantes para mim, que nós nos esforçamos para apresentá-las da melhor maneira possível e que eu fico feliz em notar que há quem queira ouvi-las.

Você já tem algum novo trabalho em mente?
Sim, já começamos as gravações do meu próximo disco, que deve sair em 2011. Ainda não posso falar muito a respeito, mas eu sinceramente não poderia estar mais empolgado.

Como e quando você chegou a conclusão que Goiânia é a cidade mais “rockeira” que você já tocou?
“Rockeira” não é bem o termo certo que eu usaria, mas eu realmente acredito que Goiânia tem uma platéia especial. São pessoas que reagem de forma extremamente passional com a música que ouvem, muito acolhedoras e calorosas. Sempre que tenho a chance de tocar por aí, fico impressionado com a reação do público. Dificilmente se encontra público como o de Goiânia. Entre as cidades em que eu já toquei, acho que a única comparável é Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo.

Em sua opinião, como está hoje o rock independente no país?
No que diz respeito à qualidade artística, acho que vive um dos melhores momentos da história do Brasil. São incontáveis os artistas e bandas que eu realmente admiro: Charme Chulo, Vincebuz, Suéteres, Nevilton, Quarto Negro, Hierofante Púrpura, Mamma Cadela, Macaco Bong, Eletrofan, The Soundscapes, André Mendes, Repentina, INI, Seamus, Alarde, Pale Sunday, The Name, Gigante Animal… enfim, a lista é longa. Infelizmente, os velhos problemas de sempre continuam: a dificuldade para alcançar uma profissionalização dentro do circuito, a falta de estrutura, etc.

Por Leandro Gel 

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